Dos têxteis ao software: indústria da defesa com novo fôlego e dores de crescimento

Dos têxteis ao software: indústria da defesa com novo fôlego e dores de crescimento

A invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, seguida por uma crescente instabilidade geopolítica no Médio Oriente e em outras regiões, serviu de desfibrilador para a indústria da Defesa.

João Santos Costa - RTP /

A necessidade tomou conta da iniciativa política: a primeira deixa partiu da Comissão Europeia e nos últimos quatro anos entrou no radar de quase todos os Estados-membros, Portugal incluído. A mensagem é clara: a Europa tem de tomar conta de si própria. Um desígnio que não se alcança pela mera vontade e que exige uma base industrial robusta.

Desde que as tropas russas avançaram sobre o território ucraniano que o setor europeu da defesa se tem vindo a reconfigurar em torno de uma realidade mais evidente: a guerra já não se faz só por terra, ar e mar.


Uma nova frente de guerra
A ciberguerra “é uma nova frente que será cada vez mais importante”, considera Miguel Pupo Correia, professor catedrático no Instituto Superior Técnico (IST) e investigador do INESC-ID. O especialista em cibersegurança entende que as infraestruturas “que têm muito valor para a nossa sociedade” são muitas vezes civis e que se estão a tornar alvos militares. É o caso dos sistemas informáticos de serviços financeiros, da saúde, educação, ou até redes elétricas, telecomunicações, aeroportos e satélites.

“Temos assistido [a isso] na Ucrânia, vimos algumas facetas disso no Irão”, garante, lembrando que “qualquer país europeu é um alvo fácil” porque a complexidade destas redes as torna difíceis de proteger.

Um recente estudo da Check Point estima que Portugal seja alvo de dois mil ciberataques por semana. Ainda recentemente, as secretas portuguesas identificaram “um Estado estrangeiro” a tentar aceder a informações de telemóveis de governantes portugueses. “É mais visível ver um edifício com um buraco do que ver um ciberataque”, diz Pupo Correia, que considera que “não existe nenhuma organização pronta a agir” para defender o país de ataques dessa natureza.

“Todo o software de uma infraestrutura como a internet… São das obras de engenharia mais complexas que a humanidade jamais criou - e são muito difíceis de proteger”, garante.

“Hoje em dia, imensa capacidade militar passa por software”, corrobora o CEO da Critical Software, João Carreira. A tecnológica portuguesa, criada em Coimbra, trabalha com o sector da Defesa há 25 anos e assinala orçamentos “muito, muito parcos” nas últimas décadas. “O nosso negócio seguia essa tendência e isso está a mudar”, considera.

Nos escritórios de Sete Rios não se fabricam drones, aviões, carros de combate ou mísseis, mas desenvolve-se o software que opera esses equipamentos nos palcos de combate, como é o caso da Ucrânia. Uma guerra que João Carreira entende ter sido “um ‘wake-up call’ para a Europa”.

No campo da cibersegurança há espaço para otimismo, diz o executivo. “A fronteira pode ser muito ténue: sistemas de software militares e civis têm pontos em comum. Ao longo da história, o investimento na área militar teve sempre um impacto muito grande em termos de inovação”, explica. Exemplo disso mesmo é Silicon Valley: “começou por ser um polo de desenvolvimento militar”.

A empresa portuguesa trabalha com algumas das gigantes europeias - Rheinmetall, Leonardo e Saab. Algumas valorizaram mais de 1000% em quatro anos.
A indústria mudou
Portugal não tem uma indústria pesada de armamento, como terá França, Alemanha ou até Itália. Mas tem outra vantagem que tanto Pupo Correia como Carreira entendem ser estratégica: talento.

“Temos muito boa formação em cibersegurança”, garante o docente do IST, para quem o desafio está em escalar e operacionalizar esse talento. Isto é, se o conseguir reter: “um engenheiro pode custar 50 mil [euros] por ano. Uma empresa com dez engenheiros… É meio milhão por ano. É dinheiro. (...) O setor público, tanto defesa como civil, que queira contratar essas pessoas tem uma dificuldade enorme em pagar preços de mercado”, avisa.

“São muitas décadas em que a indústria europeia estagnou”, atira João Carreira, que já emprega mais de 1.300 pessoas em Lisboa, a maior parte engenheiros. “Mas vejo bons sinais, a Europa a acordar, players a surgir na Defesa e empresas que se reinventaram. Vejo boas oportunidades”, sublinha.

Há quem se reinvente e há quem já tenha surgido de bússola apontada para o sector nos últimos anos. Pupo Correia acredita que “existe um potencial económico a investir nessa área” e dá como exemplo a Tekever - que conhece bem, já que o fundador partiu também ele do pólo universitário da Alameda.

É o mais recente unicórnio português. Quer dizer que vale já mais de mil milhões de dólares. O fundador, Ricardo Mendes, diz que o crescimento começou ainda antes do conflito no leste europeu, onde os drones da startup têm sido decisivos para o esforço de defesa dos ucranianos. “Não viemos do mundo da Defesa, mas hoje em dia estamos muito na Defesa”, diz.

A empresa fabrica sistemas de vigilância e aquisição de alvos, com drones autónomos que não estão munidos de armamento nem são utilizados em sistemas one-way, para ataque direto (vulgo kamikaze). Ao abrigo do Frontex, vigiam o canal da Mancha desde 2019.

Ricardo Mendes está convicto de que Portugal vai ter que fazer “um grande investimento” nos próximos anos. A fórmula inteligente, diz, passa por “escolher os setores certos: aqueles em que temos a capacidade de ser os melhores do mundo, ou da Europa”. Um esforço que o CEO da Tekever garante que terá de ser tripartido entre as empresas, o Estado e a Academia.
O problema está na (ainda) dependência externa
A Tekever “desenvolve praticamente tudo”, e o fundador diz que já não têm dependências da China, mas que há componentes que ainda são importadas dos EUA. O esforço será para um desacoplamento total de materiais de mercados além do ocidental. O mesmo não acontece noutras áreas da indústria, como o têxtil.

De Guimarães e Famalicão saem fardas e botas para exércitos de todo o mundo. Há fardamento e calçado português na Mongólia, Austrália, Afeganistão e Egito. “Portugal é talvez o último cluster têxtil da Europa”, garante o presidente do CITEVE, António Braz Costa, que defende que o país está na posição de ser um fornecedor de excelência dos parceiros europeus, à luz da “emergência atual”.

Também esta indústria, já centenária, aponta desafios de escala e de mercado, sobretudo quando o próprio Estado olha para fora antes de olhar para dentro.

“Um concurso para os próximos três anos, o Exército esqueceu-se das especificações e o concurso só era valorizado pelo preço, o que permitiu a entrada de produtos estrangeiros de baixa qualidade”, diz o presidente do ICC, Teófilo Leite. A empresa tem sentido cada vez mais procurada por calçado militar: representa já 15% da faturação, mas o mercado nacional só representa um quarto das vendas.
Uma “oportunidade triste”
O ICC diz-se preparado para adaptar a produção a essa procura mais intensa, mas pede que o muito dinheiro que está para vir sirva para “abrir a porta a novas tecnologias”. Longe vai o tempo das botas de couro e borracha, que dão hoje lugar a novos têxteis de “grande capacidade”, como aqueles que são produzidos pelo CITEVE, onde metade do investimento é hoje aplicado em Investigação e Desenvolvimento.

Portugal deverá atingir pela primeira vez a meta de 2% do PIB investido na Defesa. Essa meta vai subir para 5% em poucos anos. Só do programa SAFE vêm 5,8 mil milhões em empréstimos de longo prazo. num instrumento europeu de financiamento com um total de 150 mil milhões de euros. Outros fundos estão em vias de chegar.

“Muitas vezes o preço ainda é o critério-rei”, lamenta Braz Costa. “À medida que as novas formas de fazer guerra vão mudando, também o tipo de sistemas e as necessidades ao nível dos materiais são diferentes”. Aqui desenvolvem-se tecidos adaptados a ameaças de várias naturezas, incluindo a cibernética. Encontrar esses materiais é outra tarefa.

“Traz a necessidade da Europa garantir a sua autonomia e agarrar as oportunidades de produção industrial desses materiais”, diz o responsável do CITEVE. João Carreira acha que o país se deve posicionar “nas áreas que têm mais valor acrescente” e que “Portugal tem o talento para fazer”. “Software, AI, tecnologia, num país da nossa dimensão, nas nossas alianças, é um papel que podemos adicionar”, sublinha.

Sobre isso, Miguel Pupo Correia não tem dúvidas e avisa que “se a Europa quer de facto autonomia nessa área tem de olhar para dentro”.

Na indústria têxtil e do calçado, onde a guerra tem dado novo ânimo à produção, lamenta-se o contexto mas aproveita-se a ocasião. “A guerra é sempre uma tristeza”, diz Braz Costa. “Mas se ela for inevitável, e se as empresas do meu país e do meu setor puderem fazer negócio com isso… É uma oportunidade - triste -, mas é uma oportunidade”.
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